O único lugar onde eu tinha esperança de encontrar algum tipo de registro sobre a história da Maria do Liberdade era a igreja católica. Por isso, em Feijó, tratei de ir direto pra Igreja Matriz da cidade, consagrada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E a primeira pessoa que encontrei, ainda no pátio externo, foi a Dona R., que não me contou nenhuma história da morte de Maria, mas, sem muito arrodeio, disse que...
“Minha avó viajou no mesmo navio em que
os ossos da Maria foram pra Roma. A urna onde ela estava ia escoltada por dois
soldados, um de cada lado. Minha vó disse que ninguém podia nem chegar perto.
Isso ela me contou e é verdade!”
O problema é que comecei a ouvir
novas versões sobre a morte de Maria. Só que elas trouxeram mais dúvidas do que
respostas, sobre o que teria acontecido entre ela, seu irmão e os outros
personagens que continuavam a surgir...
Dona S.
disse que “Tinha 7 ou 8
anos e, como toda criança, gostava de ouvir a conversa dos adultos. E uma
senhora, Dona Olívia, amiga da minha avó, era costureira e mulher de um antigo
regatão e contava muitas histórias dos rios e seringais que conheceu.
Um dia, ouvi ela contando essa
história, que era proibida pra mim. Mas, consegui escutar e nunca mais saiu da
minha cabeça. Ela contou que foi mesmo o irmão o culpado da morte da Maria. Ele
gostava dela e ‘ficou’ com ela. Então, ela se desesperou e se matou.”
Ouvir essa versão, confesso, foi como
um soco no estômago. Eu tava estranhando que algo assim ainda não tivesse surgido.
Ao mesmo tempo, torcia pra que não surgisse... Às vezes, é difícil não se
envolver com as histórias que se contam.
No dia seguinte, Seu F. me contou
que “A história que eu
conheço é que um cara tentou estuprar ela, mas não conseguiu! Dai matou ela.
Mesmo morta, ela ficou dum jeito que, ele ainda tentou estuprar depois de morta,
não conseguiu! Dai o irmão dela, chegou e viu o que o cara tinha feito, foi, e
matou ele.
Depois
ela foi enterrada e começaram a rezar por ela e a receber milagres. Ai vieram
aqui na cidade e chamaram o padre. O padre, com mais ou menos um mês depois dela
morta, desenterrou e ela tava do mesmo jeito que tinha sido enterrada,
perfeita. Ai trouxeram pra cidade. Veio gente de Roma pra cá, uns Bispos, uns
Cardeais, dai levaram ela pra Roma. Ou, não sei se foi pra Roma, só sei que
tiraram daqui de Feijó. Eles dormiram lá no seringal Japão, onde minha vó
morava. Minha vó pediu um pedaço da fita que estava enrolada nela. E minha vó
era bem conhecida por lá, por isso, cortaram um pedaço da fita e deram pra
ela.”
Mas Dona N., buscando em lugares longínquos
de sua memória de 85 anos, tornou a levar a história noutro rumo quando me assegurou
que “A Santa Maria da
Liberdade foi o irmão que matou. Ele tava trepado lá em cima do ‘sóti’
(traduzindo: no sotão da casa), a espingarda
disparou e pegou nela. Antes de morrer ela falou que quando alguém tivesse
problema, precisasse de ajuda, era só pedir, pra que se valesse dela. Acho que
ela tinha 13 anos quando morreu. Meu pai ia todos os anos pro Liberdade. Meu
sogro, que tirava caucho lá no alto Envira, foi que conheceu ela ainda viva.”
No mercado da cidade, Dona
H. que, eu e meu guia, encontramos por acaso, disse que “Ouviu dizer... que o irmão dela era muito afobado e pediu pra Maria
engomar uma roupa, porque ele ia pra uma festa. Ai, ela falou que não ia engomar
roupa nenhuma! Assim mesmo ela foi.
Quando
ela se abaixou no baú, ele pegou e deu um tiro nela. Atirou nela! Ai, assim: de
cada um desses chumbos que pegou nela, virou... estrelas...
Mas,
ninguém sabe, né? Tem muitas histórias...”
E, numa demonstração cabal que, por
mais estranha que, às vezes, possa parecer nossa compreensão da realidade, sempre
se pode torná-la ainda mais extraordinária, Seu S. me garantiu que “Maria arranjou um namorado e seu irmão não
aceitou. Um dia o cabra foi atrás de falar com a Maria e o irmão botou pra cima
dele pra matar, mas não conseguiu. O cabra escapou. Ai, o irmão matou ela...
Ela era muito novinha quando aconteceu...”
A essa altura do campeonato,
minha cabeça dava voltas. Porque, paralelamente a essa multiplicidade de versões:
eu tentava calcular a data, ou a década ao menos, que isso tudo aconteceu, mas sem
achar; buscava nos livros de batismos das desobrigas que foram feitas pelos
padres, dos anos 20 pra cá - graças à boa vontade dos responsáveis - registros
de Maria ou de sua família no alto Envira; tentava pôr em ordem a construção da
capela/túmulo no Liberdade e da igreja na cidade de Feijó e suas respectivas
comunidades; procurava encontrar a filha do irmão de Maria, que diziam ainda estar
por lá... Enfim...
Um turbilhão de coisas e
possibilidades que nem estou contando aqui, pra que esses artigos possam ser lidos
nestes tempos de twitter, face e textos mínimos... Mas, foi uma alagação de
informações tão intensa que, naquele momento, vertiginoso, deu pau no meu HD. Travei.
De verdade. Não conseguia mais lembrar quem tinha me contado o que... Tudo
virou uma coisa só, indistinta, como fosse uma sopa de histórias passada no
liquidificador. E, ainda por cima, quente, fervente.
Ai ai... Ainda bem que gravei
umas coisas, filmei outras e anotei o q pude... Senão, não teria sequer, uma
história pra contar. Mas, como disse nas postagens que fiz, lá de Feijó, semana
passada: essa é, sem duvida, a história mais louca de tantas quantas histórias já
encontrei... na vida.
E ai? É pra continuar a contar??? Ou já deu?
Marcos, continue. Pfvr.. haha
ResponderExcluirAposto que tem muito mais aih..
To acompanhando..
Ansiosa para ouvir os demais relatos
ResponderExcluirLer*
ResponderExcluirMV pode continuar.
ResponderExcluirBoraaaaaaaaa MV!!!!! Continua
ResponderExcluirBlz moçada, é q a história ficou mais longa do q eu imaginava... Mas tb pq to doido pra saber logo o fim dessa história...
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