Mas, um pequeno texto
repetido nas duas matérias do site de Feijó abriu diante de mim um mar de
contradições. Muito maior e profundo do que eu podia imaginar.
“(...) Maria
da Liberdade, foi uma boa jovem, que sempre morou com sua família em um
seringal situado às margens do rio Envira. Aos quinze anos, foi assassinada por
seu irmão, por não aceitar casar-se com certo homem, antes de morrer Maria da
Liberdade, perdoou o mesmo.”
Como assim? Na primeira história
Maria já tinha 20 anos, aqui 15. O irmão, que era seu protetor, agora é seu
assassino. E o motivo foi ela se recusar a casar com “certo homem”. O que
mostra uma postura autoritária do irmão de Maria, ao invés da cumplicidade
revelada pela primeira história. Mas, mesmo assim, antes de morrer, Maria perdoou
seu irmão. O que, talvez, fosse uma justificativa para sua posterior
santificação.
Em seguida, o mesmo texto conta
que "(...) no seringal, foi
construído uma Capela (...) e em seu interior fica somente a sepultura da Maria
Liberdade, pois seu corpo foi levado para Roma pelo Monsenhor.”
Mais uma vez, tudo ao contrário.
Na primeira versão o corpo misteriosamente volta pro Seringal Liberdade e lá
permanece. Nesta segunda, o corpo de Maria foi retirado da sepultura, já
transformado em Capela e lugar de devoção, e levado para ROMA!!! Pelo
Monsenhor??? Que monsenhor? Como um corpo é tirado daqui do Acre e levado pra
Roma sem termos nenhuma noticia em canto algum?
Bueno... Independente do que quer
que tenha levado Maria à morte, a devoção à Santa Maria da Liberdade cresceu
com força e velocidade surpreendentes. Como parece ter acontecido também com o
São João do Guarani, em Xapuri; a Santa Raimunda do Bonsucesso, em Assis Brasil;
a Profª. Rosalina, em Rio Branco; o irmão José da Cruz, no Juruá; e muitos
outros santos e profetas espalhados por quase todos os rios e povoados e
cidades desse Acre de espiritualidade tão especial e intensa.
Capela de Santa Maria da Liberdade, fonte: Site Cultural de Feijó
A capela de Santa Maria da
Liberdade passou a ser um lugar de peregrinação pra todo o povo do rio Envira,
Jurupari, Tarauacá, Muru e até do Juruá, dizem. As promessas e as histórias de
graças alcançadas se espalham e são atestadas com grande firmeza e fé pelos que
são “validos”, como diz o povo, pela menina Maria tornada Santa em seu martírio.
E, a partir desse ponto, todos os relatos convergem na mesma direção, apesar de
outras tantas contradições específicas, em relação ao grande poder da santa do
alto Envira.
Ou seja, a essa altura me pareceu
que a história que precisava ser pesquisada e conhecida era a da Maria, ponto
de partida da história da Santa. A história de vida daquela pessoa com nome e
sobrenome que viveu no seringal Liberdade, até que uma morte brutal a tornou santa
aos olhos de todos. Especialmente, porque as duas versões que eu tinha sobre
ela e as circunstâncias da sua morte, até então, eram completamente opostas e
antagônicas.
Por coincidência, há alguns dias atrás,
surgiu a oportunidade de ir a Feijó e, talvez, subir o rio Envira até o
túmulo/capela do Liberdade. Claro que nem pensei duas vezes... fui.
Mas, antes mesmo de chegar a
Feijó, uma rápida subida no rio Jurupari, me levou ao Parque das Ciganas, uma
comunidade muito bonita, de vida farta e tranquila, em um rio que eu ainda não
conhecia. E, lá, o patriarca da comunidade, Seu A.* me contou uma nova
versão da história da “Maria do Liberdade”.
Segundo ele: “Meu pai trabalhou lá no Envira, no seringal Liberdade. Ele e minha mãe
contavam que foi o irmão que matou a irmã. Mas não foi porque quis. Ele
brincava muito. Gostava muito dela e gostava de brincar. Ai foi e disse que ia
matar ela. Mas, não pensou que tinha cartucho. Na mente dele, tinha tirado o
cartucho da espingarda. Ai foi, brincando por lá, detonou a espingarda e matou,
acertou ela. Não foi porque ele quis. Ele desesperou-se muito.
Ai ela
foi sepultada e, com pouco tempo, o papai contava que as pessoas passavam na
cova dela e tava aquele cheiro! Um perfume que parecia que tinha aberto um
vidro de perfume naquele instante. A notícia correu e os padres foram lá e
fizeram a capela. E ela é conhecida, desde aquela época, como Santa Maria da
Liberdade. Meu pai disse que os padres levaram o corpo dela. Mas o poder ficou
lá. O poder de Deus ficou lá onde ela foi sepultada.”
Pra minha surpresa... Era a
terceira versão diferente com que eu me deparava. Mas, uma hora, os depoimentos
teriam que começar a se repetir. E, provavelmente, essa versão mais repetida deveria
ser a de maior veracidade e capaz de orientar a busca por documentação sobre o
caso. Pelo menos era o que eu esperava...
Mal podia imaginar, ainda, o que ia
encontrar em Feijó...
* A partir desse ponto não vou identificar
mais as pessoas que me deram depoimentos e informações, até que elas leiam
esses artigos que estou publicando e autorizem a citação de seus nomes.

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