quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Santa Maria da Liberdade II... As muitas mortes de Maria...

Pouco depois de ouvir a história de Maria da Liberdade, fiz o que todo mundo faz hoje em dia: uma busca no Google. E, surpreendentemente, a internet, que tudo sabe e tudo vê, só tinha duas matérias do Site Cultural de Feijó, do Prof. Evilásio Cosmiro. E um vídeo de fotos, feito e postado no Youtube, por uma família que subiu o rio Envira até a capela que guarda o túmulo da Santa Maria da Liberdade. Ou seja, para os padrões da internet com que estamos acostumados, quase nada.
Mas, um pequeno texto repetido nas duas matérias do site de Feijó abriu diante de mim um mar de contradições. Muito maior e profundo do que eu podia imaginar.
“(...) Maria da Liberdade, foi uma boa jovem, que sempre morou com sua família em um seringal situado às margens do rio Envira. Aos quinze anos, foi assassinada por seu irmão, por não aceitar casar-se com certo homem, antes de morrer Maria da Liberdade, perdoou o mesmo.”
Como assim? Na primeira história Maria já tinha 20 anos, aqui 15. O irmão, que era seu protetor, agora é seu assassino. E o motivo foi ela se recusar a casar com “certo homem”. O que mostra uma postura autoritária do irmão de Maria, ao invés da cumplicidade revelada pela primeira história. Mas, mesmo assim, antes de morrer, Maria perdoou seu irmão. O que, talvez, fosse uma justificativa para sua posterior santificação.
Em seguida, o mesmo texto conta que "(...) no seringal, foi construído uma Capela (...) e em seu interior fica somente a sepultura da Maria Liberdade, pois seu corpo foi levado para Roma pelo Monsenhor.”
Mais uma vez, tudo ao contrário. Na primeira versão o corpo misteriosamente volta pro Seringal Liberdade e lá permanece. Nesta segunda, o corpo de Maria foi retirado da sepultura, já transformado em Capela e lugar de devoção, e levado para ROMA!!! Pelo Monsenhor??? Que monsenhor? Como um corpo é tirado daqui do Acre e levado pra Roma sem termos nenhuma noticia em canto algum?
Bueno... Independente do que quer que tenha levado Maria à morte, a devoção à Santa Maria da Liberdade cresceu com força e velocidade surpreendentes. Como parece ter acontecido também com o São João do Guarani, em Xapuri; a Santa Raimunda do Bonsucesso, em Assis Brasil; a Profª. Rosalina, em Rio Branco; o irmão José da Cruz, no Juruá; e muitos outros santos e profetas espalhados por quase todos os rios e povoados e cidades desse Acre de espiritualidade tão especial e intensa.

 Capela de Santa Maria da Liberdade, fonte: Site Cultural de Feijó

A capela de Santa Maria da Liberdade passou a ser um lugar de peregrinação pra todo o povo do rio Envira, Jurupari, Tarauacá, Muru e até do Juruá, dizem. As promessas e as histórias de graças alcançadas se espalham e são atestadas com grande firmeza e fé pelos que são “validos”, como diz o povo, pela menina Maria tornada Santa em seu martírio. E, a partir desse ponto, todos os relatos convergem na mesma direção, apesar de outras tantas contradições específicas, em relação ao grande poder da santa do alto Envira.
Ou seja, a essa altura me pareceu que a história que precisava ser pesquisada e conhecida era a da Maria, ponto de partida da história da Santa. A história de vida daquela pessoa com nome e sobrenome que viveu no seringal Liberdade, até que uma morte brutal a tornou santa aos olhos de todos. Especialmente, porque as duas versões que eu tinha sobre ela e as circunstâncias da sua morte, até então, eram completamente opostas e antagônicas.
Por coincidência, há alguns dias atrás, surgiu a oportunidade de ir a Feijó e, talvez, subir o rio Envira até o túmulo/capela do Liberdade. Claro que nem pensei duas vezes... fui.
Mas, antes mesmo de chegar a Feijó, uma rápida subida no rio Jurupari, me levou ao Parque das Ciganas, uma comunidade muito bonita, de vida farta e tranquila, em um rio que eu ainda não conhecia. E, lá, o patriarca da comunidade, Seu A.* me contou uma nova versão da história da “Maria do Liberdade”.
Segundo ele: “Meu pai trabalhou lá no Envira, no seringal Liberdade. Ele e minha mãe contavam que foi o irmão que matou a irmã. Mas não foi porque quis. Ele brincava muito. Gostava muito dela e gostava de brincar. Ai foi e disse que ia matar ela. Mas, não pensou que tinha cartucho. Na mente dele, tinha tirado o cartucho da espingarda. Ai foi, brincando por lá, detonou a espingarda e matou, acertou ela. Não foi porque ele quis. Ele desesperou-se muito.
Ai ela foi sepultada e, com pouco tempo, o papai contava que as pessoas passavam na cova dela e tava aquele cheiro! Um perfume que parecia que tinha aberto um vidro de perfume naquele instante. A notícia correu e os padres foram lá e fizeram a capela. E ela é conhecida, desde aquela época, como Santa Maria da Liberdade. Meu pai disse que os padres levaram o corpo dela. Mas o poder ficou lá. O poder de Deus ficou lá onde ela foi sepultada.”
Pra minha surpresa... Era a terceira versão diferente com que eu me deparava. Mas, uma hora, os depoimentos teriam que começar a se repetir. E, provavelmente, essa versão mais repetida deveria ser a de maior veracidade e capaz de orientar a busca por documentação sobre o caso. Pelo menos era o que eu esperava...
Mal podia imaginar, ainda, o que ia encontrar em Feijó...
* A partir desse ponto não vou identificar mais as pessoas que me deram depoimentos e informações, até que elas leiam esses artigos que estou publicando e autorizem a citação de seus nomes.

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