sábado, 21 de janeiro de 2017

Santa Maria da Liberdade III... Quantas mortes Maria?


O único lugar onde eu tinha esperança de encontrar algum tipo de registro sobre a história da Maria do Liberdade era a igreja católica. Por isso, em Feijó, tratei de ir direto pra Igreja Matriz da cidade, consagrada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E a primeira pessoa que encontrei, ainda no pátio externo, foi a Dona R., que não me contou nenhuma história da morte de Maria, mas, sem muito arrodeio, disse que...
Minha avó viajou no mesmo navio em que os ossos da Maria foram pra Roma. A urna onde ela estava ia escoltada por dois soldados, um de cada lado. Minha vó disse que ninguém podia nem chegar perto. Isso ela me contou e é verdade!” 
Em seguida, sem aviso, Dona R. me disse o nome do irmão de Maria. Nome e sobrenome! Tomei um susto, eu juro. Não tinha me ocorrido, ainda, perguntar o nome dele. Muito menos tentar procurar por ele pra achar a Maria. Só então percebi que, por mais óbvio que pareça, ele continuou vivo e, talvez, tivesse tido filhos e netos que poderiam ajudar a conhecer essa história. Quem sabe.
O problema é que comecei a ouvir novas versões sobre a morte de Maria. Só que elas trouxeram mais dúvidas do que respostas, sobre o que teria acontecido entre ela, seu irmão e os outros personagens que continuavam a surgir...
Dona S. disse que “Tinha 7 ou 8 anos e, como toda criança, gostava de ouvir a conversa dos adultos. E uma senhora, Dona Olívia, amiga da minha avó, era costureira e mulher de um antigo regatão e contava muitas histórias dos rios e seringais que conheceu.
Um dia, ouvi ela contando essa história, que era proibida pra mim. Mas, consegui escutar e nunca mais saiu da minha cabeça. Ela contou que foi mesmo o irmão o culpado da morte da Maria. Ele gostava dela e ‘ficou’ com ela. Então, ela se desesperou e se matou.”
Ouvir essa versão, confesso, foi como um soco no estômago. Eu tava estranhando que algo assim ainda não tivesse surgido. Ao mesmo tempo, torcia pra que não surgisse... Às vezes, é difícil não se envolver com as histórias que se contam.
No dia seguinte, Seu F. me contou que “A história que eu conheço é que um cara tentou estuprar ela, mas não conseguiu! Dai matou ela. Mesmo morta, ela ficou dum jeito que, ele ainda tentou estuprar depois de morta, não conseguiu! Dai o irmão dela, chegou e viu o que o cara tinha feito, foi, e matou ele.
Depois ela foi enterrada e começaram a rezar por ela e a receber milagres. Ai vieram aqui na cidade e chamaram o padre. O padre, com mais ou menos um mês depois dela morta, desenterrou e ela tava do mesmo jeito que tinha sido enterrada, perfeita. Ai trouxeram pra cidade. Veio gente de Roma pra cá, uns Bispos, uns Cardeais, dai levaram ela pra Roma. Ou, não sei se foi pra Roma, só sei que tiraram daqui de Feijó. Eles dormiram lá no seringal Japão, onde minha vó morava. Minha vó pediu um pedaço da fita que estava enrolada nela. E minha vó era bem conhecida por lá, por isso, cortaram um pedaço da fita e deram pra ela.”
Mas Dona N., buscando em lugares longínquos de sua memória de 85 anos, tornou a levar a história noutro rumo quando me assegurou que “A Santa Maria da Liberdade foi o irmão que matou. Ele tava trepado lá em cima do ‘sóti’ (traduzindo: no sotão da casa), a espingarda disparou e pegou nela. Antes de morrer ela falou que quando alguém tivesse problema, precisasse de ajuda, era só pedir, pra que se valesse dela. Acho que ela tinha 13 anos quando morreu. Meu pai ia todos os anos pro Liberdade. Meu sogro, que tirava caucho lá no alto Envira, foi que conheceu ela ainda viva.”
No mercado da cidade, Dona H. que, eu e meu guia, encontramos por acaso, disse que “Ouviu dizer... que o irmão dela era muito afobado e pediu pra Maria engomar uma roupa, porque ele ia pra uma festa. Ai, ela falou que não ia engomar roupa nenhuma! Assim mesmo ela foi.
Quando ela se abaixou no baú, ele pegou e deu um tiro nela. Atirou nela! Ai, assim: de cada um desses chumbos que pegou nela, virou... estrelas...
Mas, ninguém sabe, né? Tem muitas histórias...”
 

E, numa demonstração cabal que, por mais estranha que, às vezes, possa parecer nossa compreensão da realidade, sempre se pode torná-la ainda mais extraordinária, Seu S. me garantiu que “Maria arranjou um namorado e seu irmão não aceitou. Um dia o cabra foi atrás de falar com a Maria e o irmão botou pra cima dele pra matar, mas não conseguiu. O cabra escapou. Ai, o irmão matou ela... Ela era muito novinha quando aconteceu...”
A essa altura do campeonato, minha cabeça dava voltas. Porque, paralelamente a essa multiplicidade de versões: eu tentava calcular a data, ou a década ao menos, que isso tudo aconteceu, mas sem achar; buscava nos livros de batismos das desobrigas que foram feitas pelos padres, dos anos 20 pra cá - graças à boa vontade dos responsáveis - registros de Maria ou de sua família no alto Envira; tentava pôr em ordem a construção da capela/túmulo no Liberdade e da igreja na cidade de Feijó e suas respectivas comunidades; procurava encontrar a filha do irmão de Maria, que diziam ainda estar por lá... Enfim...
Um turbilhão de coisas e possibilidades que nem estou contando aqui, pra que esses artigos possam ser lidos nestes tempos de twitter, face e textos mínimos... Mas, foi uma alagação de informações tão intensa que, naquele momento, vertiginoso, deu pau no meu HD. Travei. De verdade. Não conseguia mais lembrar quem tinha me contado o que... Tudo virou uma coisa só, indistinta, como fosse uma sopa de histórias passada no liquidificador. E, ainda por cima, quente, fervente.
Ai ai... Ainda bem que gravei umas coisas, filmei outras e anotei o q pude... Senão, não teria sequer, uma história pra contar. Mas, como disse nas postagens que fiz, lá de Feijó, semana passada: essa é, sem duvida, a história mais louca de tantas quantas histórias já encontrei... na vida.
E ai? É pra continuar a contar??? Ou já deu?

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