Certo dia, essa história me alcançou e não consegui mais esquecer. Desde então busco uma narrativa que parece não existir, tantas são...
No alto rio Envira, já
chegando nas ultimas casas dos cariús, perto de onde começa o território dos
índios brabos, fica o Seringal Liberdade. E dizem que foi nesse seringal em que
viveram Maria e seu irmão.
Mesmo depois que os
pais de Maria foram mortos pelos índios, os dois irmãos decidiram ficar por
ali. Não tinham pra onde ir, talvez. Ou, quem sabe, não pudessem sair por
divida com o patrão. Ou, então, não quiseram sair do lugar onde nasceram e se
criaram, que era tudo que conheciam do mundo. Não sei.
O certo é que por lá
ficaram, tocando a vida, como sempre.
Maria era uma moça
bonita, esperta e dava conta de todo o serviço de casa e do terreiro. Já estava
chegando aos vinte anos, mas não queria saber de casar. O que naqueles tempos de
barrancos e seringais era um absurdo. Por aqui as meninas se casavam, no mais
tardar, aos 14, 15 anos. Quando não, muito antes. Mas Maria tava bem assim e
pronto.
Um dia o irmão lhe
avisou que precisava ir na margem resolver umas contas no barracão e lhe chamou
pra ir. Mas Maria quis não. Tava acostumada a ficar só em casa, porque o irmão
passava a maior parte do tempo na mata mesmo. E não ia ser a primeira vez que
ela ficava na colocação enquanto ele ia até a margem. Eram só três dias, ida e
volta. Tava decidido. Ia ficar.
O irmão foi, fez tudo
que tinha pra fazer na sede do seringal o mais rápido possível e voltou pra
casa. Assim que entrou no aceiro da mata já foi chamando por Maria, mas tava
tudo quieto. Entrou em casa e não tinha nada diferente, tudo nos seus cantos. Nada
da Maria. Chamou, chamou, e só ouviu o latido do cachorro lá fora, pros rumos
do igarapé onde Maria costumava pegar água e lavar a roupa. E foi pra lá.
Na beira do igarapé viu
o cachorro latindo sem parar e cavando na beira d’água. O rapaz desconfiou do
jeito do cachorro latir e começou a cavar no mesmo lugar. Foi quando encontrou
Maria. Ela tinha sido estuprada e estrangulada pelos índios. Talvez os mesmos
que mataram seus pais.
Ele ficou desesperado,
sem saber o que fazer. Mas a raiva lhe restituiu a ação e o fez chamar os vizinhos. Enterraram
Maria perto do Igarapé mesmo e foram atrás dos índios que tinham cometido
aquela barbaridade. E mataram um monte deles nos dias seguintes.
O problema é que, desde
esse dia, o irmão de Maria nunca mais teve paz. Se ele entrava na mata sentia
uma presença que não conseguia ver. Às vezes ouvia lhe chamarem pelo nome e
quando olhava não tinha ninguém. E o pior é que a voz parecia a da Maria. Logo
ele começou a sonhar com a irmã quase toda noite.
Em seus sonhos Maria
aparecia bonita como sempre, sem nenhum machucado. Mas seu rosto tinha um
sofrimento, uma agonia, que não era comum nela. Até que num desses sonhos Maria
falou com ele:
- Meu irmão me tire
dali de onde você me enterrou. Eu to quase dentro da agua. Não quero ficar ali
não. Nem se preocupe porque eu to inteirinha, a terra não me comeu. A terra só
conseguiu roer um pouquinho a ponta do meu nariz por causa daquela mania que eu
tinha de cheirar tudo que eu pegava. Você lembra que brigava comigo que só por
conta disso? Pois é. Fora a ponta do meu nariz eu tô perfeita, pode me tirar e
me colocar num lugar melhor.
Mas ele não tinha
coragem de atender o pedido dela. Até porque já fazia quase um ano que Maria
tinha morrido, devia estar só os ossos. Viajou, então, até a cidade pra pedir
ajuda ao padre. Decidiram trazer o corpo de Maria pra cidade. Com certeza,
enterrada num campo santo, a alma de Maria havia de encontrar descanso. E assim
fizeram.
Mas, quando
desenterraram Maria, ela estava inteirinha mesmo. Como tinha dito no sonho: só
a ponta do nariz machucada... No mais, tinha o semblante tranquilo, parecia
estar dormindo.
Na cidade fizeram um
velório breve, onde todos se surpreenderam com o corpo intacto de Maria. E,
logo, trataram de enterrá-la, como se deve, no cemitério. Mas, assim que nasceu
o dia, alguém deu conta de que o túmulo da Maria tava aberto e que o corpo
tinha sumido. Depois de muito procurar, o irmão dela se deu por vencido e,
pensando que alguém, por algum motivo que desconhecia, havia roubado o corpo de
Maria, decidiu voltar pra casa.
Nem bem chegou, foi até
o igarapé se lavar e se deparou com o corpo de Maria num lugar mais alto,
próximo do rio. Mais uma vez ele teve que enterrar a irmã, enquanto rezava que
ela finalmente encontrasse a paz, no mesmo lugar em que achou o corpo. E não
demorou nada para que começassem a surgir as primeiras histórias de milagres e
graças concedidas por Maria àqueles que lhe pediam ajuda e faziam promessas.
Num inverno muito forte
o rio encheu tanto que o igarapé onde Maria morreu que chegou a mudar de curso
e e suas águas passaram por cima do túmulo dela. Quando as águas baixaram, viu
que tinham se formado pedras bem por cima do túmulo e o povo do lugar decidiu
fazer uma capela pra ela. Bem ali, naquele mesmo lugar.
Desde então, todos os
anos, muitas pessoas são validas pela Maria da Liberdade e vão até sua capela,
há cinco dias de barco de Feijó, pagar promessas, deixar pernas, braços e cabeças
feitas de madeira, ou apenas pra rezar e acender uma libra de velas pra Santa
Maria da Liberdade.
Se foi assim que tudo
aconteceu, não sei. Eu mesmo só sei que, muitos anos depois, uma mulher descia
o rio Tarauacá numa grande agonia. Ela não conseguia parir e a dor a estava
consumindo. Não ia dar tempo de chegar à cidade, ou a mulher paria logo ou ia morrer.
Pararam num vilarejo em meio de caminho e, antes de a carregarem barranco acima,
ela prometeu à Santa Maria da Liberdade que se à ajudasse a parir e fosse uma
menina saudável ia receber o nome dela. Naquela mesma noite,
nasceu uma menina batizada Maria da Liberdade e que, há uns três meses
atrás, já mulher feita, me contou essa história.
Obs: Depois dessa primeira narrativa da história de Maria, ouvi muitas outras versões. Em Feijó, parece que cada um conhece uma história diferente. Histórias opostas, inconciliáveis entre si... Querem ver? Vou contar...
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